Hazel Motes : você é capaz de ver o que está na sua frente ?


               Em uma carta escrita em 1954 a Ben Griffith,  Flannery O'Connor escreveu sobre
 o protagonista da história

" ele é, na concepção, inteiramente centrado na redenção. Poucos estão dispostos a encarar isso, e talvez isso seja difícil, porque Hazel Motes é um niilista admirável. Seu niilismo o conduz de volta à realidade de sua redenção que, no entanto, é justamente aquilo de que ele gostaria muito de se ter afastado.”
Um cristão apesar de si mesmo, que em seus desespero quer fundar uma Igreja onde:
"o surdo não escuta, o cego não vê, o coxo não anda, o mudo não fala e os mortos continuam mortos " 

A história se inicia com o retorno de Hazel Motes para o Tennesse, após ter cumprido o serviço militar durante quatro anos. Apesar de novo, ele não tem mais parentes vivos e no seu regresso acaba transformando o carro a sua casa e na estrada o símbolo desta vida solitária e peregrina.
 Podemos compreender durante toda o romance, a dificuldade que o protagonista tem de ver e ouvir o que está ao  seu redor recordando o versículo de Mateus 7:3 

“E por que reparas tu no cisco que está no olho do teu irmão, e não vês a viga que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão, deixa-me tirar o cisco do teu olho, estando uma viga no teu? Hipócrita, tira primeiro a viga do teu olho, e então cuidarás em tirar o cisco do olho do teu irmão.”

Hazel está tão focado em ser um niilista, em se converter ao nada, que mantém sempre um olhar perdido no infinito e esta apatia dos sentidos configura uma indiferença com as  pessoas.Como explica a personagem Sabbath Lilly : 

“Eu gosto dos olhos dele. Eles não parecem ver aquilo para o que estão olhando, mas continuam olhando.” 

A cegueira é apresentada na história como um símbolo de falsidade e também de lucidez , nesta atenção ao que realmente importa. 

Hazel também não  escuta a buzina do carro, a sua dificuldade perceptiva é simultaneamente um  esforço de alienação a  ao mesmo tempo uma entrega, ou como revela a própria escritora em sua nota de 1962, à segunda edição do romance :

“Que a fé em Cristo seja para alguns questão de vida e morte tem sido uma pedra de tropeço para leitores que prefeririam pensá-la como algo sem consequências. Para eles, a integridade de Hazel Motes está na sua tentativa firme de se livrar da figura esfarrapada que se move de árvore em árvore no fundo de sua mente. Para a autora, a integridade de Hazel está em sua incapacidade de fazê-lo”.

Esta incapacidade fica explícita no capítulo sete quando Lilly tenta seduzi-lo . Ela conta que por sua condição de bastarda (ser nascida fora do casamento) está condenada para a Igreja e que como está em pecado pode deixar de ser virgem pois isto não fará diferença em sua salvação. Hazel então explica que em sua Igreja sem Cristo não existe esta coisa de bastardo, e que todos são iguais.

A proximidade de Lilly dizendo: Eu vejo você ! Deixa mais evidente a contradição no interior do protagonista. Na sua Igreja os bastardos serão salvos ou ele disse aquilo apenas para deixar ela feliz. Eu vejo você ! ele ouve agora a voz como um chamado interior o que o faz levantar e sair da cena de sedução. Toda a paisagem parece configurar esta mudança, o céu e as nuvens desenham o início e o fim do capítulo emoldurando a preocupação moral de Hazel que por mais que tente, ele não consegue ser um niilista. 


A escritora explica como ler a obra :

"Sangue sábio não trata da forme do estômago, nem de certa nostalgia religiosa, mas da ânsia persistente da alma.Não é um livro a respeito de alguém cuja lealdade religiosa serve para encobrir uma indolência e um fatalismo que o fazem degenerar na pobreza e na selvageria ante a fome; tampouco a respeito de uma família de miseráveis que se afunda no anonimato naturalista quando a elevação de seu rito fúnebre se encerra. É um livro sobre a necessidade inescapável do homem em sua busca temerosa, embora cega,
 de salvação"

Você pode também assistir o filme dirigido por John Huston e inspirado na obra .



A partir do ano 2000 tem surgido críticas sobre Flannery 
por racismo, veja este artigo do New York Times : 


Recomendo  a aula de Amy Hungerford’s sobre a escritora e um aprofundamento do período histórico da vida da escritora. 

https://oyc.yale.edu/english/engl-291/lecture-3



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