Dostoiévski e o mistério de ser homem
"O homem é um mistério que é necessário esclarecer, e se passei a vida toda tentando esclarecê-lo, não diga que perdi tempo, eu só estudo este mistério porque quero ser homem"
No seu livro : O diário de um escritor, de 1874, Dostoiévski revela abertamente suas opiniões e posicionamentos. Em outra obra, O Idiota de 1868, o caráter biográfico aparece subjacente nos relatos do Princípe Mychkin, trazendo inclusive a sua experiência com a epilepsia. As sensações de sublimidade e transcendência que antecediam os ataques são relatadas, e o sentimento de felicidade e perfeição sentidos pelo escritor compõe os relatos do princípe.
Outro momento biográfico importante vivido pelo escritor e relatado na história é o da execução da pena de morte. Essa experiência , tão dramática quanto reveladora, foi fruto da punição e sentença de Dostoiévski, por participar no círculo revolucionário de Petrachévski. O que lhe rendeu dez anos de exílio na Sibéria, quatro deles como prisioneiro em Omsk e os restantes, como soldado e oficial do exército russo.
"Dostoiévski jamais esquecerá o ímpeto de renovação que o arrebatou naquele momento, assim como jamais abandonará a esperança de poder comunicar a outros a mesma confiança em infinitas possibilidades que fizera vibrar cada fibra do seu ser. Foi essa enlevada compreensão da vida, e essa ambição, que ele posteriormente emprestou ao príncipe Mychkin, embora com a triste e irônica certeza de que tal aspiração pareceria “idiota” aos olhos dos que se prendem às paixões e preocupações da vida mundana" Biografia Frank
Em Diário de um escritor (1873), Dostoiévski relembra:
“Quando nós [os petrachévtsy] estávamos no presídio de Tobolsk, à espera do que o destino nos reservava, as mulheres dos decabristas apelaram ao diretor da prisão e conseguiram marcar um encontro conosco no alojamento dele. Pudemos então olhar para essas grandes mulheres sofredoras, que haviam seguido voluntariamente os maridos até a Sibéria. Elas tinham sacrificado tudo pelo dever moral mais sublime, um dever que coisa alguma lhes teria imposto senão sua própria vontade. Inocentes de todo crime, elas suportaram durante vinte e cinco longos anos tudo o que seus maridos condenados padeceram”.
É este amor , renúncia à qualquer egoísmo que o escritor procura e escreve.
[...] tomai sobre vossos ombros os pecados humanos, e tornai-vos responsáveis por eles.
Após três dias de cama, porém sem dor, Dostoiévski morreu em 9 de fevereiro de 1881.
"Desde sua volta da Sibéria em 1860, Dostoiévski vinha sonhando em unir a sociedade russa num todo harmonioso ligado pela fé pelo amor. O mais perto que chegou de realizar essa sublime quimera foi durante os dias em que seu corpo se manteve no ataúde. Todos – literalmente todos – aqueles que viviam a vida cultural e política de São Petersburgo, o centro nervoso do Império Russo, vieram prestar-lhe homenagem. [...] Os próprios contemporâneos não puderam deixar de encantar-se com a unanimidade de pesar e de reverência subitamente exibida por todos os setores de uma sociedade que, em outras circunstâncias, era separada por incessante conflito" (Biografia Frank)
Escute o podcast deste episódio no link abaixo :https://anchor.fm/psicopatologia/episodes/Dostoiévski-
Referências :
Biografia : Joseph Frank
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